Era loira, dona de olhos azuis cristalinos, grandes e brilhantes. No rosto, um sorriso terno contemplava a pele macia e clara, tornando-o simpático, apaziguador.
Sentou-se a poucos metros da minha mesa, logo que encontrou os meus olhos na sua órbita, sorriu. Sorri de volta. É mágico um sorriso desconhecido ao final do dia.
Continuei a minha rotina.
Sentada no café, à hora certa do dia marcado, como sempre. Gosto dos meus momentos de paz aqui. Trago o caderno já gasto e rasgado, a caneta de pena e o torbilhão de pensamentos e sentimentos a implorarem para sair.
Organizo tudo. O caderno aberto, a caneta já na mão e ... para adoçar a alma, o sabor do café com leite. Escrevi,escrevi,escrevi. Esqueci-me que as pessoas passavam por mim, que olhavam e opinavam. Levantei a cara e cumprimentei o Mundo.
Tudo normal, mas... ela voltou a sorrir, não foi o mesmo sorriso de desconhecido.
Baixei a cara. 'provavelmente será para alguém sentado na mesa detrás'
Abri o caderno, com toda a delicadeza para não perder nada da sua essência, e olhei para a fotografia de uma criança com dois dentes, aloirada e com ar traquinas, e sorri.
Continuei a escrever o que aquela criança era, o que sentia e o quanto me faria feliz.
Alguém senta-se na mesma mesa do que eu.
Olhei assustada e fechei o caderno.
- Desculpa. Não queria interromper a tua escrita. - disse a cara sorridente, agora envergonhada.
- Não faz mal. Queres alguma coisa? - respondo com prontidão, mostrando não estar a gostar da situação.
- Vi-te como dispões os teus utensílios, como cada coisa é sagrada, a forma como delicadamente agarras na pena e desenhas as palavras. Gostei dos sorrisos, das sobrancelhas cerradas, dos olhos brilhantes inundados de lágrimas... as tuas expressões quando escreves. Gostei de ti.
- Hummm.... - com aquela cara de 'desculpa?' já característica.
- Não leves a mal. Queria conhecer-te, achei graça a certas coisas em ti, ao longe. Ao perto, fechas-te em copas e cerras as expressões. É engraçado. Porque fazes isso?
- Porque não te conheço... nem sei como te chamas e esta não é uma situação muito normal...não achas?
- Acho. Estava ali sentada a ver-te e pensei, 'se não for lá, nunca mais a vou ver', logo farta de perder oportunidades, enchi os pulmões e vim. No início ia só pedir um cigarro, depois olhei para ti e não consegui dizer nada. É estranho. Desculpa, não queria mesmo incomodar-te.
- Não faz mal. Fizeste bem. Só fiquei assustada e surpresa. Podemos começar de novo?
- Desculpa, posso pedir-te um cigarro? E se não for pedir muito....como é que se chama? - ironiza a situação.


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