Desde criança que soube manipular todos os fios de azeite que tentaram enrolar as suas ideias tão fixas quanto as rochas que trepava sem medo algum. Sabia correr contra o vento como nunca ninguém soube, rasgar a água sem medo de a consumir, lutar sempre que sabia ter razão e brincar, brincar sempre que um segundo mal visto no relógio lhe fosse admitido.
Criava mundos de paredes cor-de-rosa onde guardava todas as palavras que ouvia, todas por ordem, uma a seguir à outra, para que um dia fosse como eles, alguém. Sentava-se no mesmo canto do quarto mergulhada em bonecas loiras de olhos azuis onde falavam horas, perdiam jantares e festas até o telejornal cheio de mortes e sobreviventes, deixavam parecer o mundo real, um mundo de loucos e sorriam.
O chá era servido às 17h e as bolachinhas previamente feitas com amor e carinho que a mãe sempre ensinou a transmitir. As amigas entravam no seu quarto e enquanto degustavam o chá contavam peripécias e olhares escaldantes trocados com cavalheiros de lenço no bolso.
Um dia cresceu, deixou as amigas de cabelos dourados como sóis sentadas no mesmo canto do seu quarto, recusou o chá de camomila e as bolachinhas melosas de tanto amor que depositava nelas.
Um dia, escondeu o coração frágil e cheio de sonhos e apaixonado por pessoas imaginárias que lhe faziam tão bem, num cofrezinho azul que trazia desde os poucos anos de vida e que sempre lhe fascinou.
Deu-lhe um beijo e de impulso lançou do seu refúgio,de lágrimas e sorrisos solitários, para um mar sublime, o oceano que mora a metros de casa.
Eu sei onde está a chave e tu, sabes onde está o meu coração?




