terça-feira, 24 de junho de 2008

Wanted

Tinha mais 3 centímetros do que os seus cúmplices companheiros de traquinices e acreditava no amor à primeira vista, aqueles romances arrebatadores que a deixassem horas a fio deitada num muro a ver as estrelas e fases da lua.

Desde criança que soube manipular todos os fios de azeite que tentaram enrolar as suas ideias tão fixas quanto as rochas que trepava sem medo algum. Sabia correr contra o vento como nunca ninguém soube, rasgar a água sem medo de a consumir, lutar sempre que sabia ter razão e brincar, brincar sempre que um segundo mal visto no relógio lhe fosse admitido.

Criava mundos de paredes cor-de-rosa onde guardava todas as palavras que ouvia, todas por ordem, uma a seguir à outra, para que um dia fosse como eles, alguém. Sentava-se no mesmo canto do quarto mergulhada em bonecas loiras de olhos azuis onde falavam horas, perdiam jantares e festas até o telejornal cheio de mortes e sobreviventes, deixavam parecer o mundo real, um mundo de loucos e sorriam.

O chá era servido às 17h e as bolachinhas previamente feitas com amor e carinho que a mãe sempre ensinou a transmitir. As amigas entravam no seu quarto e enquanto degustavam o chá contavam peripécias e olhares escaldantes trocados com cavalheiros de lenço no bolso.

Um dia cresceu, deixou as amigas de cabelos dourados como sóis sentadas no mesmo canto do seu quarto, recusou o chá de camomila e as bolachinhas melosas de tanto amor que depositava nelas.

Um dia, escondeu o coração frágil e cheio de sonhos e apaixonado por pessoas imaginárias que lhe faziam tão bem, num cofrezinho azul que trazia desde os poucos anos de vida e que sempre lhe fascinou.



Deu-lhe um beijo e de impulso lançou do seu refúgio,de lágrimas e sorrisos solitários, para um mar sublime, o oceano que mora a metros de casa.



Eu sei onde está a chave e tu, sabes onde está o meu coração?




No cantinho do céu, há tarte de maçã e canela...

Sentei-me numa pedra fria virada para o rio,sabia que os sentimentos que me traziam lá eram tantos quantos os sentimentos gélido e fúteis daquele pedaço de granito.
Deixei que a corrente levasse tudo o que tinha, tudo o que me magoava...a mistura das lágrimas com a água estranhamente imunda e sórdida fez-me acreditar que em alguma parte do Mundo o azeite mistura-se com a água, tal como tu e eu.
Num cantinho do céu cheio de sol durante o dia e estrelas durante a noite, talvez nesse cantinho do Mundo,hoje, não me deixasses estranhamente triste e estranhamente magoada.
Onde pudessemos dar as mãos e não tivessemos um relógio a 'tick-tackar' os segundos, onde o mar fosse tão desmedido,sereno, tão limpo de nuvens que fosse um convite irrecusável todos os dias do ano, a areia fina e a noite, a noite repleta de estrelas cadentes para que todos os teus desejos fossem,ao menos, pedidos.
O pequeno-almoço na hora do almoço ou o almoço na hora do jantar?
Podia cozinhar todas as refeições do nosso dia e até lavar a loiça (mas,que loiça?!), tratar da casa ou algo que acolhesse o nosso amor em dias de temporal.
3 filhos?
Maravilhoso. Por mim, teríamos uma equipa de futebol, todos com os teus traços de menina 'agradável à vista', com o teu cabelo, com o teu cerebrozinho de Einstein, com a tua boa disposição em dias de sol e sem a má disposição num dia de chuva, com a tua gargalhada e nunca com o teu choro, com a tua visão do Mundo, com a tua definição de amor, com o teu orgulho na família e sem a tua rabugice de preferência.
Durante a noite, acendíamos uma fogueira e contávamos histórias de amor feitas à nossa medida,
sempre com final feliz e mergulhávamos na imensidão do Universo ao explicar cada constelação aos nossos rebentos. Explicávamos a Lua e o significado que tem para nós, aos mais velhos narrávamos cada detalhe do nosso primeiro encontro, o nervosismo e a sensação de estar 'apaixonado'.
Neste cantinho do céu, será que seríamos felizes?
Parece 'quase' perfeito...

Mas falta o 'quase' mais-que-perfeito...
'Eureka, agora eu sei...'



(: *

sábado, 21 de junho de 2008

Shine on me

O vento já passou mais frio
do que ontem.
Traz uma leve e reconfortante
memória de noite de verão
onde delicadamente oiço a tua voz ao longe.

Alguém conspirou
e a noite é susceptível
a sensações desconhecidas
como o aroma
de uma noite de verão inesquecível.

Chegas levemente
com medo do meu partir.
Deixas que o teu perfume
venha ao encontro dos meus sentimentos
vazios,
escondidos entre poeiras e arrependimentos.



Vejo o teu reflexo no mar,
sinto-te a me abraçar.
Suavemente,
tiras-me os vícios estúpidos que sempre tive
e misturas o teu calor no meu.


Damos as mãos
e a noite fica mais bonita.

Dizes : '-Já viste quem chegou? Está ali a tua estrela preferida...!'


É verdade. Chegou silenciosamente,
arrombou a porta,
sentou-se
e de pedra e cal nunca mais há-de sair.