quinta-feira, 27 de novembro de 2008

in progress..

Era loira, dona de olhos azuis cristalinos, grandes e brilhantes. No rosto, um sorriso terno contemplava a pele macia e clara, tornando-o simpático, apaziguador.

Sentou-se a poucos metros da minha mesa, logo que encontrou os meus olhos na sua órbita, sorriu. Sorri de volta. É mágico um sorriso desconhecido ao final do dia.

Continuei a minha rotina.

Sentada no café, à hora certa do dia marcado, como sempre. Gosto dos meus momentos de paz aqui. Trago o caderno já gasto e rasgado, a caneta de pena e o torbilhão de pensamentos e sentimentos a implorarem para sair.

Organizo tudo. O caderno aberto, a caneta já na mão e ... para adoçar a alma, o sabor do café com leite. Escrevi,escrevi,escrevi. Esqueci-me que as pessoas passavam por mim, que olhavam e opinavam. Levantei a cara e cumprimentei o Mundo.

Tudo normal, mas... ela voltou a sorrir, não foi o mesmo sorriso de desconhecido.

Baixei a cara. 'provavelmente será para alguém sentado na mesa detrás'

Abri o caderno, com toda a delicadeza para não perder nada da sua essência, e olhei para a fotografia de uma criança com dois dentes, aloirada e com ar traquinas, e sorri.

Continuei a escrever o que aquela criança era, o que sentia e o quanto me faria feliz.

Alguém senta-se na mesma mesa do que eu.

Olhei assustada e fechei o caderno.


- Desculpa. Não queria interromper a tua escrita. - disse a cara sorridente, agora envergonhada.


- Não faz mal. Queres alguma coisa? - respondo com prontidão, mostrando não estar a gostar da situação.


- Vi-te como dispões os teus utensílios, como cada coisa é sagrada, a forma como delicadamente agarras na pena e desenhas as palavras. Gostei dos sorrisos, das sobrancelhas cerradas, dos olhos brilhantes inundados de lágrimas... as tuas expressões quando escreves. Gostei de ti.


- Hummm.... - com aquela cara de 'desculpa?' já característica.


- Não leves a mal. Queria conhecer-te, achei graça a certas coisas em ti, ao longe. Ao perto, fechas-te em copas e cerras as expressões. É engraçado. Porque fazes isso?


- Porque não te conheço... nem sei como te chamas e esta não é uma situação muito normal...não achas?


- Acho. Estava ali sentada a ver-te e pensei, 'se não for lá, nunca mais a vou ver', logo farta de perder oportunidades, enchi os pulmões e vim. No início ia só pedir um cigarro, depois olhei para ti e não consegui dizer nada. É estranho. Desculpa, não queria mesmo incomodar-te.


- Não faz mal. Fizeste bem. Só fiquei assustada e surpresa. Podemos começar de novo?


- Desculpa, posso pedir-te um cigarro? E se não for pedir muito....como é que se chama? - ironiza a situação.



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

pequeno-almoço a horas de amar

acordei com a sensação que o sol estaria, de pedra e cal, teimosamente à espera do meu primeiro olhar. Aquela sensação, 'só mais 5 minutos' premidos às cegas, o virar para o outro lado e afagar com toda a ternura do Mundo a almofada.

queria esquecer-me que sei andar, falar e pensar. o colchão é confortável, a almofada já tem o contorno do meu pescoço, o cobertor já tem a medida exacta para me cobrir a cara em dias de inverno.
podia,fechar outra vez os olhos, e sonhar. sonhar com tudo o que ambiciono, ouvir palavras em tons nunca ouvidos, cruzar olhares que trazem almas e arredores de ventrículos.

Deixo-me ficar na cama.
O dia traz um gosto a sal, a maresia. E com a maresia, um pequeno trago a fruta fresca, corpos beijados e sonhos em saltos nunca vistos.

Ergo a sobrancelha,estico os ossos e preparo os músculos. São horas.
sento-me na cama e sinto os pensamentos a colidir. Há sempre algo que faz-me sair do quente e continuar a sonhar. Aquele pequeno-almoço.

A casa estava isenta de barulho. O cheiro, o cheiro do café acabado de fazer, aquele cheiro que acaricia-nos a alma de memórias sorridentes do começo de dia maravilhosos, de dias tristes, de dias e noites que nos tornam nós. Os tentáculos do sol alaranjado pintavam a sala, onde num leve sussurro com a voz do Tom Jobim percebemos o significado de paz.

Sentei-me sem demoras. Tomei o café exageradamente açucarado contemplando o mar, o cheiro, o calor,o verde, aquela eterna paisagem.

Saí de casa, preparada para mudar o tom de pele, sentir o sal no corpo e em dito de aventura mergulhar de todas as alturas.

Cheguei. Deitei-me e sonhei a olhar para o céu azul, com alguém, com um beijo, com um abraço, com borboletas que fazem cócegas e arrepios que atravessam o corpo, com o amor. Amar. Queria olhar nos olhos e perceber que ali perdera todas as defesas, todas as incertezas.

Ouvi-te chegar. Aconteceu, eu não estava à tua espera, nem muito menos, sabia quem tu eras.
Olhei-te e não soube direccionar os pensamentos, construir sentimentos, palavras, que palavras? Não sei.
O confuso. O inesperado.

Lembro-me de olhar-te nos olhos e ver a tua alma pura, os teus sentimentos brutos, o teu coração desabitado.

Respirei fundo e ao Mundo, num suspiro, lancei átomos de quem ama pela primeira vez.

Vejo-te na mesma posição, sou capaz de descrever todos os pormenores do teu corpo, da tua essência, e a ferro quente tatuado no meu coração ficaram três intensas palavras.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

esquerdo.

é estranhamente penetrante a sensação que nos confunde, que difunde dois sentimentos, o quer e não saber-como.



vejo-te a muitos passos dos meus, sei que há uma linha transparente que liga o teu coração ao que é certo, vejo-te tão bem,oh linha.





sinto faíscas, leves e curtas trovoadas,terramotos e tudo o que faria o Mundo desabar, numa pequena linha quase invisível, uma vez coração, outra vez, o que diz 'não'.





senta-se a centímetros da minha epiderme o que diz ser certo e chora, num ruído mais-que-piano, as emoções que arrepiam a medula espinal e, em jeito de paralisia, se apoderam dos lábios rasgados de parvoíce.





não brincamos mais. o coração contraiu o ventrículo esquerdo. o tal ventrículo esquerdo. aquele que, para além de ser 'coração', é o lado que ama, o lado que chora, o lado que derrete e congela.





o amor,nasce e não morre, no ventrículo esquerdo.





sai o sangue limpo, cheio de vida. sonha por entre os passos distraídos, distribui tudo o que tem de bom aos que trazem a cara já cansada de noites a plena luz, é feliz.





e pouco tempo depois, está quase nú, esfarrapado por pequenos picos, esqueceu o sonho que o fez sorrir logo de manhã, tem apenas uma espécie de inquietude, de conflito dentro de si.








o amor esquerdo é assim. sai feliz, pode voltar triste, mas o que importa é que passados segundos faz as pazes.


it's my time to change


'There are moments when life calls out for a change. A change. It is just like the seasons. Our spring was wonderful. But the summer is over. For a long time. And we missed the autumn. Now suddenly, it is cold, so cold that everything freezes. My heart stopped. Our love fell asleep, it was surprised by the snow. But those who are sleeping in the snow, do not notice death...'