domingo, 28 de dezembro de 2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

a gota salgada conquista o céu

Deixa-me respirar, pela última vez, o nevoeiro que paira aqui,
rasgar-me os lábios enquanto o frio se instala em mim.
Deixa-me guardar imagens com medo de te perder
nas vãs ruas que chamas tuas. Escrever o nome
nas pedras da calçada que piso, uma última vez.
Deixa-me navegar os últimos dias à mercês
do que disseram-me ser teu,
quero ouvir dizer que gostas dos sorrisos que são meus.
Parto sem noção de ir.
Quero conquistar o céu. Deixa-me incendiar o que não quero
abandonar,
numa ida sem volta, o céu vou conquistar.
O céu será meu.
Uma lágrima reinará nos céus
algures no reflexo do meu oceano,
levemente saberei sorrir
ao pressentir um novo ano.
Quando conquistar o céu...
não saberei como ir nem como voltar.
O subtil adeus saberá como regressar
algures numa saudade ansiosa de choro,
partir sorrindo discretamente sabendo que morro.
O céu será meu
explodindo o coração que dizem intacto,
meu, ao saber dissolver laços dados e re-dados
na garganta ao dizer adeus.
Meu, ao calor da última e única lágrima
ao avistar algo imenso com ele.
Meu.
Parto sem saber como ir,
na ansia de chegar a onde nunca quero partir.

O céu será meu, quando chegar
e souber partir,
aos lugares que quero conquistar
sempre a saber como me despedir.



Ela e os seus laços

'HÁ três remédios que ainda não foram inventados: o remédio para a estupidez, o remédio para a paciência e o remédio para cortar laços. Num mundo perfeito, as pessoas iam à farmácia e pediam uma caixa de comprimidos para o bom feitio, ou umas injecções para os neurónios. Quanto aos laços, não imagino outro objecto senão uma tesoura bem afiada para cumprir a missão.
Alguém devia inventar uma tesoura para cortar laços, sobretudo quando os laços já estão cheios de nós cegos e não há volta a dar. À falta de um objecto contundente que serviria para cortar o mal pela raiz, restam os procedimentos habituais; bater com a porta, deixar de telefonar, não atender chamadas, fazer exercícios de abstracção, em suma, fechar o coração.

FECHAR o coração é um exercício duríssimo para quem o tem. Não estou a falar dos já aqui citados donuts que alguns seres humanos escondem, nos quais as setas do Cupido se atravessam sem provocar a mais leve ferida, caindo no vazio do buraco negro de forma inconsequente. Estou a falar de pessoas com coração, que sabem dar e receber amor.
Quem deixa um grande amor para trás carrega grilhetas tão ou mais pesadas do que aquele que fica sentado, pregado na pedra do porto, como canta Chico Buarque. Bater com a porta requer coragem, concentração e muita força de vontade. É preciso saber desistir e hoje em dia ninguém gosta de desistir de nada, muito menos do amor, até porque o amor é um bem escasso que facilmente se confunde com entusiasmo, atracção física, tesão, paixão ou entendimento. Mas afinal o que é o amor, senão uma soma nada matemática que engloba todas estas sensações, sentimentos e estados?

HÁ algum tempo que desisti de definir o amor e passei a concentrar-me em entender onde reside o amor. Isto porque acredito que o amor em si não existe, o que existe são provas de amor. Logo, essas provas podem estar à vista de todos. E é por esta ordem de ideias que as pessoas ficam noivas, trocando promessas e anéis, e depois se casam, trocando mais promessas e mais anéis. As celebrações amorosas servem para selar o amor. Por outro lado, as rupturas amorosas não seguem preceitos nem rituais; cada um faz o melhor que sabe e aguenta-se como pode, engolindo a mágoa do conformismo, ou remando contra a maré.
Como escreveu Truman Capote – que por acaso jogava na equipa dos donuts – a morte de um sonho é tão triste e dolorosa como a própria morte, merece por isso o respeito e silêncio para com aqueles que a sofrem. Quando alguém desiste de um amor, está também a desistir de um sonho que já acalentou. E é muito difícil desistir. Abdicar de um amor dói, e essa dor dura, demora a partir. É como viver com uma pedra encostada à garganta.

QUEM quer mesmo desistir tem de conseguir cortar o mal pela raiz, antes que os laços se tornem nós à volta do pescoço e do coração. É preciso pegar na tesoura e zás, cortar sem dó nem piedade, e sobretudo sem olhar para trás, sob o risco de reviver o mito daqueles que, ao partir de Sodoma e de Gomorra, se transformaram em estátuas de sal.'

Margarida Rebelo Pinto.
[ porque ela vive na palma da minha mão e sempre soube pescar em mim todos os sentimentos que não sei descrever. ]




o teu coração tem entrada de emergência?

'Levar com a porta na cara dói muito. Dói sempre, o dia inteiro, a todas as horas e a todos os minutos. Dói tanto que os segundos se podem tornar insuportáveis e os dias facilmente se transformam em epopeias, viagens trágico-marítimas. Dói de manhã, assim que regressamos do abençoado estado de inconsciência em que o sono nos guarda, quando olhamos para o lado e perguntamos: e agora? Dói quando olhamos para o espelho embaciado onde existem os fantasmas de frases de amor escritas com a ponta dos dedos. Dói quando nos lavamos, quando comemos, quando engolimos, quando respiramos, quando falamos, quando ouvimos, quando pensamos. Dói um bocadinho menos quando nos rimos, quando os amigos nos abraçam, quando a noite cai e os filhos nos protegem.

Mas o que mais dói é saber que alguém que ainda amamos, por medo e por sofrimento, nos fechou o coração. O som é igual ao de mil tambores em fúria: não vale a pena falar, não vale a pena escrever, não vale a pena tentar chegar ao outro lado, saltar o muro, enviar emissários, içar bandeiras, fazer cimeiras, apanhar aviões e levar na mão o nosso coração como presente porque ele já não o quer. Quando o outro coração se fecha, deixa de ser nosso. E quando um homem fica surdo do coração, como é muito mais prático do que uma mulher, em vez de chorar e lamber as feridas, oferece-o a outra mulher.'


Margarida Rebelo Pinto

sábado, 6 de dezembro de 2008

Infinito Particular

Chegou com alguns anos de atraso, anos eternos sonhados. Ela, noites a fio, sentada na rede admirava a lua e todos os pontinhos cintilantes que a rodeavam, imaginava os seus traços, com o seu abraço, o toque. Sabia que tudo tinha o seu tempo, todos apressam o amor. Ela, ansiava preencher o coração, encher os pulmões de arrepios e as pernas de adrenalina. Com ela, todos os sonhos de amores antigos, de romantismo, de jantares e olhares cúmplices.

Um dia, acordou sentindo a intensidade do seu abraço e a pureza da sua pele, não sabia a cor que trazia ou os traços que a definiam. Apenas o abraço.

Os dias passaram, as luas renovaram e estrelas morreram. Triste, numa lágrima só, deixou de a procurar. Deixou a vida escolher o tempo certo e sonhar de olhos abertos.

Estava sol, naquele dia. O céu de um azul cristalino e o mar convidativo, levou-a a passear. Mal ergueu o olhar, o coração em jeito de arritmia, fingiu falhar. Estranho. Algo muito estranho. As pernas não flectiam ao andar, o olhar era fixo e a respiração alterada. A sua luz transmitia pensamentos estranhos e por momentos não soube lidar com os mesmos. Lembrou-se de sorrir ao cruzar os seus olhos nos dela. Sorriu timidamente, em jeito de 'gostei de te ver'. Devagar, esqueceu-se do tempo quente que a rodeiava, ficou com o corpo frio e os olhos tão brilhantes quanto quem a prendeu.

Insegura, levou a alma até a fonte e deixou-se encantar com a voz, o olhar e o sorriso de quem, de pedra e cal, preencheu o seu coração já surdo de tanto a procurar.

Contemplou o Mundo com o sorriso-que-é-só-dentes e deixou-se levar nas asas do amor. Gostava de ouvi-la todas as noites, do seu calor em dias de chuva, de correr para o seu abraço, das histórias diárias, dos problemas resolvidos a dois, das palhaçadas, do seu olhar confuso e da mão certa. Não sabiam que o oxigénio existia longe uma da outra. Os cadernos eram preenchidos de miniaturas de corações fielmente perfurados de setas e os pensamentos repletos de imagens, de cronómetros, ansiedade. Passaram-se meses e meses. Horas eternas.

Não sabiam definir o que sentiam, apenas que a gravidade alterava-se quando as mãos estavam dadas e eram capazes de voar, de flutuar por tudo o que as rodeava.

Passados outros dias, tinham um muro que as separava. O muro era alto e impossível de saltar. Olhavam as duas para a Lua, e num só sussuro, treparam o muro com toda a força que tinham.

Braços arranhados, pernas cortadas. E no encontro, o olhar era diferente, a respiração oscilava e quando encostou a mão na sua cara com a maior delicadeza do Mundo, nela uma lágrima deslizou e disse :


- Porque chegaste tão tarde? Para amar-te ainda mais?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ser[mos] humanos.

chéri & ferrero rocher

C. - Estou farta de frio!!

R. - Então porque pediste o cigarro?

A. - Passo eu um ano inteiro a levar com moucos para depois levar com isto...!




( porque teve a sua piada!)