Um dia, acordou sentindo a intensidade do seu abraço e a pureza da sua pele, não sabia a cor que trazia ou os traços que a definiam. Apenas o abraço.
Os dias passaram, as luas renovaram e estrelas morreram. Triste, numa lágrima só, deixou de a procurar. Deixou a vida escolher o tempo certo e sonhar de olhos abertos.
Estava sol, naquele dia. O céu de um azul cristalino e o mar convidativo, levou-a a passear. Mal ergueu o olhar, o coração em jeito de arritmia, fingiu falhar. Estranho. Algo muito estranho. As pernas não flectiam ao andar, o olhar era fixo e a respiração alterada. A sua luz transmitia pensamentos estranhos e por momentos não soube lidar com os mesmos. Lembrou-se de sorrir ao cruzar os seus olhos nos dela. Sorriu timidamente, em jeito de 'gostei de te ver'. Devagar, esqueceu-se do tempo quente que a rodeiava, ficou com o corpo frio e os olhos tão brilhantes quanto quem a prendeu.
Insegura, levou a alma até a fonte e deixou-se encantar com a voz, o olhar e o sorriso de quem, de pedra e cal, preencheu o seu coração já surdo de tanto a procurar.
Contemplou o Mundo com o sorriso-que-é-só-dentes e deixou-se levar nas asas do amor. Gostava de ouvi-la todas as noites, do seu calor em dias de chuva, de correr para o seu abraço, das histórias diárias, dos problemas resolvidos a dois, das palhaçadas, do seu olhar confuso e da mão certa. Não sabiam que o oxigénio existia longe uma da outra. Os cadernos eram preenchidos de miniaturas de corações fielmente perfurados de setas e os pensamentos repletos de imagens, de cronómetros, ansiedade. Passaram-se meses e meses. Horas eternas.
Não sabiam definir o que sentiam, apenas que a gravidade alterava-se quando as mãos estavam dadas e eram capazes de voar, de flutuar por tudo o que as rodeava.
Passados outros dias, tinham um muro que as separava. O muro era alto e impossível de saltar. Olhavam as duas para a Lua, e num só sussuro, treparam o muro com toda a força que tinham.
Braços arranhados, pernas cortadas. E no encontro, o olhar era diferente, a respiração oscilava e quando encostou a mão na sua cara com a maior delicadeza do Mundo, nela uma lágrima deslizou e disse :

- Porque chegaste tão tarde? Para amar-te ainda mais?


Sem comentários:
Enviar um comentário