Ouvir cortes de conversas que não são nossas e acreditar que o Mundo não anda louco, apenas distraído à procura do amor. Apanhar um jornal degradado no chão, impresso um dia antes, com o suor de madrugadas de euforia gasta de tanto problema junto em letras pequenas dignas de óculos.
Os olhos ainda custam a abrir, ainda têm a preguiça do sono, o calor da almofada e a lembrança de sonhos deixados sozinhos num quarto pequeno cheio de recordações alucinantes. Esforçam-se a observar o comportamento alheio, há muito coração a bater num espaço tão curto, há cafés engolidos à pressa e uma torrada fria pelo caminho. Todos correm a esta hora, não há tempo, não há passos em falso nem passos descoordenados. Rotina.
Soa ao longe uma voz já familiar que faz-nos dar um passo em direcção a nada que chega rápido.
É amarelo. As portas abrem-se e lá estão mais pessoas a correr, provavelmente atrasados, provavelmente cansados. Ninguém sorri quando há rotina.
Entramos todos. Uns conseguem ler, uns aproveitam os minutos para recordar o sonho abandonado horas antes, outros como eu, limitam-se a olhar. A olhar para nada, apenas estar.
A pensar que há dias que nos fazem correr mesmo quando não temos pressa de partir nem pressa de chegar. São dias, manhãs ou tardes.
Chego ao destino. Saio calmamente e subo as escadas com pesos estúpidos ainda presos as pernas. Cheguei. Já vi o sol, já senti o calor que traz e o calor humano de corações apertados de rotinas.
Peço um café. Já é o segundo, torna-se hábito e não rotina.
Sento-me ao vosso lado e sinto-me estranhamente calma. Ainda rimos com perguntas estúpidas, com notícias escandalosas ou apenas com previsões alucinantes de dias posteriores.
Continuam a falar e eu calo-me a meio de uma frase minha, de uma história, de um conto ou de um pensamento.
Acendo um cigarro.
Olham para mim como se fosse maluquinha e perguntam o porquê do meu silêncio.
Levo o cigarro à boca. Olho para os vossos olhos e num suspiro digo:
- É o chegar calmo, o sorriso sincero e as vossas palavras que me deixam assim.
Se fosse eu a fazer as definições de um dicionário, definia encanto assim.
O chegar a casa depois de experimentar o calor do inferno.
Olhar-vos e dizer que não há nada como os amigos, como vocês.


2 comentários:
Gosto da maneira como escreves, transformas rotina em originalidade, hábito em criatividade. Deixas a leitura saltar entre o comum e o literário, é muito bom =)
ainda bem que me encontraste!
beijo*
Que elogio :) *
Obrigada, L.A.
Não imaginas como é maravilhoso ler estas palavras (: *
beijo *
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