quinta-feira, 3 de julho de 2008

Encanto

O acelerar de passos no meio de uma multidão confusa entre pensamentos e disturbios em cada ser, fugir do calor e tentar sorrir ao ver uma criança entusiasmada com o brilho do sol que a persegue.



Ouvir cortes de conversas que não são nossas e acreditar que o Mundo não anda louco, apenas distraído à procura do amor. Apanhar um jornal degradado no chão, impresso um dia antes, com o suor de madrugadas de euforia gasta de tanto problema junto em letras pequenas dignas de óculos.



Os olhos ainda custam a abrir, ainda têm a preguiça do sono, o calor da almofada e a lembrança de sonhos deixados sozinhos num quarto pequeno cheio de recordações alucinantes. Esforçam-se a observar o comportamento alheio, há muito coração a bater num espaço tão curto, há cafés engolidos à pressa e uma torrada fria pelo caminho. Todos correm a esta hora, não há tempo, não há passos em falso nem passos descoordenados. Rotina.



Soa ao longe uma voz já familiar que faz-nos dar um passo em direcção a nada que chega rápido.

É amarelo. As portas abrem-se e lá estão mais pessoas a correr, provavelmente atrasados, provavelmente cansados. Ninguém sorri quando há rotina.



Entramos todos. Uns conseguem ler, uns aproveitam os minutos para recordar o sonho abandonado horas antes, outros como eu, limitam-se a olhar. A olhar para nada, apenas estar.

A pensar que há dias que nos fazem correr mesmo quando não temos pressa de partir nem pressa de chegar. São dias, manhãs ou tardes.



Chego ao destino. Saio calmamente e subo as escadas com pesos estúpidos ainda presos as pernas. Cheguei. Já vi o sol, já senti o calor que traz e o calor humano de corações apertados de rotinas.



Peço um café. Já é o segundo, torna-se hábito e não rotina.

Sento-me ao vosso lado e sinto-me estranhamente calma. Ainda rimos com perguntas estúpidas, com notícias escandalosas ou apenas com previsões alucinantes de dias posteriores.

Continuam a falar e eu calo-me a meio de uma frase minha, de uma história, de um conto ou de um pensamento.

Acendo um cigarro.



Olham para mim como se fosse maluquinha e perguntam o porquê do meu silêncio.



Levo o cigarro à boca. Olho para os vossos olhos e num suspiro digo:





- É o chegar calmo, o sorriso sincero e as vossas palavras que me deixam assim.

Se fosse eu a fazer as definições de um dicionário, definia encanto assim.

O chegar a casa depois de experimentar o calor do inferno.

Olhar-vos e dizer que não há nada como os amigos, como vocês.



2 comentários:

L.A. disse...

Gosto da maneira como escreves, transformas rotina em originalidade, hábito em criatividade. Deixas a leitura saltar entre o comum e o literário, é muito bom =)

ainda bem que me encontraste!

beijo*

Anónimo disse...

Que elogio :) *

Obrigada, L.A.

Não imaginas como é maravilhoso ler estas palavras (: *

beijo *