quarta-feira, 2 de julho de 2008

STOP

Saiu de casa com as convicções todas alinhadas, com as forças direccionadas e com um sorriso rasgado.

Na mala rotineira, os seus rabiscos de sonhos estranhos de ida sem volta, desenhos honrados de paredes limpas na cidade e canetas com choro preto ansiosas por mais um momento de protagonismo.

Inspirou o último trago de ar puramente condicionado e seguiu em frente ainda com a memória do rosto marcado por traços de vida que iria deixar depois daquele passo, depois do fechar a porta, depois de acreditar ser capaz de fugir e sobreviver numa selva longe da sua mão quente de histórias e vivências.



Fechou a porta. Por momentos manteve-se imóvel,desconhecendo o ar que bebia e soluçou.



Sentiu o corpo ficar descorçoado ao deslizar pelo frio de uma parede nunca tocada, sentou-se, contraiu as pernas e libertou cada medo vindo de cada centímetro de pele, cada poro que diria seu.



Nascerá um oceano das suas mágoas.

Soube vencer cada movimento de rotação dos seus problemas, dos seus medos, soube viver cada segundo - apesar da falsa aparência - com o mesmo sorriso com que convictamente saiu do ninho, soube lidar com piratas e tubarões, nadar até ficar sem ar, soube... sobreviver durante minutos.



Sentou-se numa rocha algures à deriva. Viu o pôr-do-sol, ainda com a roupa colada ao corpo, chorou as últimas dores, lembrou tudo o que era honrado de incorporar a sua memória e sem medo algum desviou a mão ao bolso esquerdo com alguma dificuldade.



Há sempre algo que nunca está errado, há sempre uma mão quente pronta para salvar um peixe no mar,há sempre um abraço que recordamos mais do que os outros...



Uma chave prateada e com formas estranhas.

Levantou-se.

Virou costas ao oceano, um passo, dois passos...





Ainda de olhos banhados de raios vermelhos e água salgada do mar em que mergulhara, entrou em casa.





Olhou em frente.



Ela continuava sentada no mesmo sítio, a ler o último poema que lhe deixara...





- Esqueceste-te de alguma coisa? Pensava que tinhas ido comprar pão.





-Esqueci-me. Esqueci-me de olhar para ti com olhos de orgulho, esqueci-me de falar-te no tom mais doce que conheço, lembrar-me antes de esquecer, esqueci-me de beijar cada lágrima tua, esqueci-me de dizer-te que és o meu porto seguro,a minha mão quente de histórias, de conselhos, de rumos sonhados.

Esqueci-me de abraçar-te antes de partir...saí ainda com a tua imagem viva em mim e fiquei imóvel quando soube que a padaria ficava a 20 metros de casa e distraída como sou, tinha me esquecido de tanta coisa.






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