terça-feira, 15 de abril de 2008

Conversa a duas cadeiras.

Eram 2 cadeiras verdes, no meio de um pátio iluminado pelo sol. Um rectângulo cinzento com calçada portuguesa nas traseiras de uma faculdade, duas almas sentadas nas tais cadeiras vulgares, desenhadas em larga escala, cantavam ao sol o que o almoço não soube ouvir.



Estivemos quietas.
Caladas.



Levámos o vício aos lábios e fingimos expulsar todo o mal que nos corrói.



Olhei para ela.
Das lágrimas que não vi, deduzi.
Há tanto na nossa história que não podemos controlar...
e hoje, hoje apetecia-me tanto falar...

Quebrámos o gelo.



- Fala-me. Que traz a tua alma que perturba o teu corpo?



- Sabes, às vezes sinto-me só. Sinto que o meu corpo não está aqui, que o jantar fica frio porque não está ninguém ao meu lado, que o meu coração já foi mais apaixonado, que as saudades são terríveis e não morrem à luz de um telefonema, que o tempo ocupado dos meus dias não valem os minutos ditos por vocês... Se há coisa que me seduz, é ver que ao chegar a esta 'coisa',a que chamam de faculdade, alguém me conhece, alguém me ouve, alguém almoça comigo e quando o tempo está bom cá fora e terrível cá dentro, agarramos em 2 cadeiras e não há horas...



- Sabes, a minha vida não é o sorriso que trago. As manhãs já tiveram sabores de fruta, de sol, de chuva, de trabalho... hoje, estão inundadas em sonhos que trago em mim, que deixo na almofada pousada na minha cama, no quarto que dizem meu. Troco os ponteiros do relógio para pensar que ando certa no meu dia e que os outros é que estão mal, tão mal que nem os vejo. Sinto medo de sair de casa, de enfrentar o mundo, dos passos sozinha... Se pudesse chorava e abraçava-me ao meu pai,antes de sair de casa. Pedia para não me deixar ir, para tratar de mim, para que o abraço chega-se até onde quero ir. Queria ser uma criança...queria ser mãe.



-Mãe! Gosto do que a palavra traz. Diz-me se estou mal ou o Mundo está prestes a acabar...? Quero ser mãe a tempo inteiro. Deixar o Mundo e ver a minha filha crescer, vês mal nisso? Serei

anormal? Quero ouvir a primeira palavra ou o primeiro sussurro, quero sentir o primeiro passo como se marcasse a humanidade, quero conhecer o Mundo dela e perceber melhor o meu... Diz-me.. Serei eu? As mulheres de hoje não querem ser assim?



- Não digas asneiras!! Elas não sabem o que dizem. Claro que qualquer mãe quer ver o desenvolvimento do seu filho. Eu própria, quero dedicar-me a tempo inteiro. Quero ouvir o primeiro choro e estar presente no último, quero ver o primeiro sonho a ser realizado, quero estar perceber o brilho nos olhos quando estiver apaixonada, quero cuidar das feridas, deixá-la adormecer no meu ombro para que não tenha medo de sonhos maus, quero que saiba todos os contos de fada que eu soube, quero que acredite que a Lua segue o nosso carro quando formos de férias, quero ter conversas de horas caladas ao lado dela... Achas que alguém não quer? Achas que alguma mãe quer ficar longe de um filho?



- Senti-me mal. Tão mal que preferia ter um pensamento moderno, queria amar mais a minha profissão do que os meus sonhos... Será que a nossa geração não sonha? Deixam-me confusa. Detesto esta gente que tem medo de dizer que ama ou que quer amar, que quer viver cada segundo em função do sorriso de alguém... Mulheres do século XXI são bem piores do que os homens do século XIX...!



- Deixa-te disso. Ainda há gente que sonha. Ainda há gente que ama e acredita no amor.



- Deixa lá que o meu namorado não está nessa percentagem. Às vezes não percebo como é que ele me conquistou, é estranho, eu sei. Ele pensa de maneira tão diferente que chego a ter medo do meu futuro ao lado dele. Ainda me lembro do nosso primeiro fim-de-semana... Havia a incerteza, os beijos a medo, as mãos inseguras, os olhares intensos... Depois, os beijos envolventes, as mãos em jeito de desejo... E o Domingo,o domingo foi o nosso dia mais infeliz, a volta ao Mundo normal, a casa, o medo de o perder, o sabor do último beijo, o andar nas nuvens, o mandar calar a mãe que está chateada, o deitar na cama e lembrar cada segundinho passado ao lado dele... Hello!!! Passados alguns tempos, já não há Domingo nem qualquer outro dia da semana que seja doce ou tenha um sabor sofisticado. Tenho medo de já não o amar...


- Vocês são mesmo muito diferentes,é um facto...mas o amor não vive de igualdade, de momentos de acordo ou de noites escaldantes, tu sabes disso.

- Trato disso quando for tempo. Agora diz-me tu, que se passou? O mesmo?

- O mesmo... Vi-o na Madeira, tive poucas vezes com ele... Queria tanto não gostar dele!!

- Com esse brilho nos olhos? Complicado...!!

- Pois... Eu sei que sim, o problema não são os olhos, esses são fáceis, o problema é esta maquineta. [ aponta para o coração ]



- Falaste com ele?



-Querer...até queria. Falamos pouco e o que falamos...não teve duas gramas do dicionário que queria ter dito. Gostava de olhar para aqueles olhos banhados de chocolate, ver a meiguice que trazem e que sempre vi, dizer que sinto saudades do abraço envolvente, do beijo quente, da mão na minha, dos dois corpos calados, das conversas de horas, das birras, das nossas brincadeiras, das nossas horas sagradas, das noites em que fugiámos para amar cada poro nosso, das estrelas, dos jantares a dois, dos fins-de-semana algures com um pequeno-almoço maravilhoso, do almoço, do vinho que ele gosta, da maneira única de falar daquele ser, do andar, do nariz, de torrar horas ao sol só porque ele adora ser uma lagartixa e não percebe que sou feita de leite e os meus filhos serão transparentes, da família dele à espera de uma frase minha, de pensar que o Mundo ia acabar e a paciência interminável dele, do beijo calmo, de brigar com ele para andar mais devagar na estrada...de amá-lo a todos os segundos...

Acho que nunca o amei assim... Se ele hoje fosse meu, não me reconhecia...Queria tanto estar com ele...!



- Preferia o sorriso parvo à lágrima estúpida...



- Sabes o que é que me irrita?



- Calculo...



- Enerva-me o poder que ele tem, enerva-me vê-lo ao longe e sentir as pernas bambas e o coração aos saltos, enerva-me pensar nele todos os minutos do meu dia, sabendo que ele nem deve pensar em mim no meu dia de anos, enerva-me fazer esta figura parva quando falo nele, enerva-me os planos mirabolantes que trago em mim, as estrelas que têm o seu perfume, os sonhos em que ele é o actor principal, os cigarros durante a noite ao fumo das palavras dele, imaginá-lo a meio de um festival a procurar por mim ( sim, porque eu feita estúpida procuro por ele e gostava que tivesse ali ), irrita-me as insónias, irrita-me as horas a olhar para o telemóvel,irrita-me sorrir, gargalhar e saltar quando sei dele, irrita-me ver alguém parecido com ele, irrita-me a cama em qe dormiámos... as paredes que consumimos, os traços que planeamos...

O pior de tudo isto... é ter a plena noção que se ele me pedisse em casamento, eu dizia que sim e não pensava em mais nada...






Porto, 12 de Abril de 2008

Por : C e V

2 comentários:

Anónimo disse...

donde te vem esse amor e esse coração mágico que só mostras às vezes, não sei. mas quero ver-te quando estiveres diante dele e disseres -com olhos, sem palavras - que o amas. e, mesmo que ninguém te possa ouvir, eu saber que gritas até te faltar o ar. e ele saber também. e ter a certeza q ides ser sempre felizes juntos.:)

Anónimo disse...

As mulheres de hoje deixam que pensem por elas. A emancipação só se vai dar quando aceitarem a sua natureza feminina e não a tentarem aniquilar, como andam por aí a fazer... Ser mãe vale muito mais que uma carreira ilusória e amar é sofrer e só viveu quem sofreu.
Gostei do blog!